18/04/2015

Carta-poema

à memória de  Eduardo Galeano

Podia ver, da janela do apartamento, a cidade amanhecida:
eram as mesmas árvores outdoors prédios fachadas
antenas e cabos da energisa.

Na estante, poeira e livros.
Entre tantas incertezas, uns seus relatos que lia com tanto apreço.
Em mim nada mudou: compro pão logo cedo
trabalho dobrado e, à noite, vez em quando tomo um
whisky.


Quando você partiu, numa segunda-feira um pouco estranha
nessa cidade que você não conhecia
imaginei - tonto de mim!
que havia morrido também um pouco da esperança.

Você não viu, Galeano,
o mundo embarazado  parir a justiça.
(São tempos difíceis esses em que vivemos 
e não há vela acesa que não apague com os ventos 
da discórdia.)

Passarei, talvez, sem ter visto também:

Não há lógica no acaso de estarmos indo rumo ao 
não-sei-onde.

Só que seguimos, vamos indo, uns ficam pelo caminho,
outros vão até onde podem
e continuamos
vivos enquanto podemos
gritando até quando nos calam.



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